Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Igreja Evangélica Alemã



Eu e o Pedro Loureiro ficámos de desenhar a Igreja Evangélica Alemã em Lisboa para a exposição Casa dos Mundos que inaugura já para a semana.
Combinámos uma primeira vez lá irmos, mas o Matias tinha passado mesmo mal a noite anterior com os dentes a nascer e só consegui adormecer já de manhã. Enviei um sms ao Pedro a avisar e ele respondeu a dizer que também não ia poder ir. Menos mal, pensei eu. Pelo menos não estou em falta...


Combinámos para o domingo seguinte. 10 horas à porta. Acordei cedo e cheguei pelas 9h50. Enviei um sms ao Pedro: "Já cá estou, vou pedir para entrar e começar a desenhar. Até já."
A este sms o Pedro respondeu-me com um telefonema já ao final da tarde. Não tinha dado para ir. Sem stress, disse-lhe...


Fiquei então eu, sozinho, a desenhar a Igreja Evangélica Alemã. Passei o portão da rua e encontrei uma senhora muito simpática. Falou comigo em alemão... "Desculpe, eu não falo alemão, só português. Vim desenhar para uma exposição organizada pelos Urban Sketchers e a Câmara de Lisboa. Posso?"
Ela sorriu, olhou para mim com um ar de quem não entendeu uma palavra do que eu disse e acenou a cabeça afirmativamente.
Comecei por fora e fui vendo as pessoas a chegar. Que bom ambiente, pensei...
Percebi logo depois que a senhora muito simpática era a pastora evangélica. Os filhos andavam sempre de roda dela.
Entrei e sentei-me num dos bancos. Brrrrr, que gelo lá fora...
"Olha, os bancos são aquecidos". De certeza que esta igreja foi projectada por um alemão, bancos aquecidos não é cultura nossa...


Assisti à missa protestante sem entender uma única palavra.
Gravei as músicas (lindas) a pensar que poderiam dar ambiente sonoro à exposição.
No final, quando me ia embora, percebi que todos iam entrar na casa dos pastores evangélicos para tomarem um chá, comer uma bolacha e conviver. "Tenho de lá ir desenhar". Entrei e o desenho tornou-se uma miragem. Ninguém me conhecia e todos queriam saber quem eu era...
Acabei numa conversa maravilhosa com uma senhora idosa e a comprometer-me a enviar os desenhos para a revista deles. Hoje, ao organizar os desenhos para fazer este post, dei-me conta que uma parte de um dos meus desenhos está na capa da revista. Fantástico!

Se há coisas que me fascinam é esta ligação que o desenho permite estabelecer com as pessoas.
Bem sei que há quem prefira desenhar de soslaio sem que ninguém dê por eles. Eu cá prefiro ir lá para o meio, meter conversa, deixar de desenhar para beber o chá, ouvir as milhares de histórias e, no final, ter destas surpresas!

12 comentários:

Maria Celeste disse...

....que história maravilhosa, Mário...
...e o desenho da igreja na capa da revista ficou lindo...
...a comunidade alemã deve ter ficado feliz...

Pedro Loureiro disse...

Finalmente conheço-os! Os desenhos e a reportagem estão excelentes! E a publicação ficou bem catita.
Desculpa novamente o desencontro. Em breve ponho aqui os meus também.

nelson paciencia disse...

Que post delicioso!

Fernanda Lamelas disse...

Que maravilha!

Alexandra Baptista disse...

a capa está LINDA e o post uma delicia!!

Rodrigo Briote disse...

Muito bonitos os desenhos.
A música lembra o "Morning has broken" do Cat Stevens.

teresa ruivo disse...

Quando o Mario se ultrapassa a si próprio :) Que desenhos tão fabulosos !

Miguel Antunes disse...

Só tu Mário!

Ias para desenhar e acabaste a lanchar e os desenhos a aparecerem na revista. Fantástico!!!

E os desenhos são sempre admiráveis!

Abraço!

hfm disse...

Que reportagem!

Rosário disse...

Um dia em cheio e com belos desenhos!

Mário Linhares disse...

Obrigado a todos!
Rodrigo: tens toda a razão!!!! :)

Teresa disse...

Sim, o maravilhoso deste modo de desenhar é poder interagir com o Outro. Numa época de supremacia da técnica e do do digital, onde grande parte da comunicação é feita através de suportes que nos transmitem, quase todos eles, imagens, as pessoas cada vez mais têm dificuldade em parar e olhar - ver - à sua volta.